ISBN: 9788535906028
Título: O último voo do flamingo
Autor: Mia Couto
Editora: Companhia das Letras
Páginas: 225
Ano: 2000
Onde adquirir: Livraria LDM
Mia Couto é um dos escritores africanos de maior destaque da atualidade. O último voo do flamingo, publicado originalmente em 2000, é seu quarto romance, e foi lançado quando Moçambique comemorava 25 anos de independência de Portugal.
Depois de um longo tempo de guerra civil, soldados das Nações Unidas estão em Moçambique para acompanhar o processo de paz. O romance narra estranhos acontecimentos de uma pequena vila imaginária, Tizangara, ao sul do país, onde militares da ONU começam a explodir subitamente.
O autor elabora uma crítica ácida aos semeadores da guerra e da miséria, mas também uma história em que poesia e esperança dependem da capacidade narrativa de contar a própria história com vozes africanas autênticas. Só elas sabem que o voo do flamingo faz o sol voltar a brilhar depois de um período de trevas e opressão.
É a primeira vez que leio algo do escritor moçambicano Mia Couto, estou impressionada com a facilidade que o autor tem de nos conduz a entender e entrar nessa história que perpassa ficção, poesia e críticas embasadas na realidade de um país.
Demorei um pouco pra iniciar essa leitura por acreditar que seria um livro muito difícil, com uma narrativa chata e cansativa. Eu estava certa? Não, não mesmo.
A história de O último voo do flamingo acontece alguns anos depois da conquista da independência de Moçambique, o país ainda vivia crise econômica e social em busca da reorganização e reestruturação. É nesse contexto de pós-guerra que acontecimentos estranhos assombram o vilarejo fictício, Tizangara. O primeiro capítulo me fez rir muito, não imaginava que a história fosse começar com um pênis decepado no meio da estrada. Eis os acontecimentos estranhos: soldados das Nações Unidas explodiam sem nenhum motivo aparente, e as únicas coisas que sobravam eram seus capacetes e seus órgãos sexuais.
Por conta de todo esse mistério, foi enviado à Tizangara o inspetor Massimo Risi, para entender e explicar tais acontecimentos aos seus superiores. Chegando na vila, Massimo é apresentado ao administrador local Estevão Jonas. O administrador trata logo de arranjar um "tradutor" para o estrangeiro, que na verdade nem precisava de tradutor, a pessoa seria muito mais uma espiã do que qualquer coisa, a intenção de Estevão era deixar alguém "de olho" em Massimo.
Para desvendar o mistério das explosões, Massimo passa a ouvir muitos moradores e as suas mais variadas formas de explicações, todas baseadas em suas crenças locais. Para tentar entender, o inspetor mergulhava cada vez mais na cultura e conhecimento daquele povo, só que quanto mais fundo ia, mais perdido ficava. Não fosse o tradutor que o acompanhava para tudo quanto era canto e lhe contava histórias daquele terra, Massimo já teria enlouquecido.
O livro é repleto de personagens ilustres, como a prostituta Ana Deusqueira que fazia os velórios dos pênis falecidos, ou padre Muhando que tinha uma relação tão próxima de Deus a ponto de lhe dá sermão... Cada personagem com sua peculiaridade foi ganhando espaço na narrativa. Mas houve um grande personagem que desde que apareceu, encheu as páginas de sabedoria, filosofia e poesia, esse personagem era o pai do tradutor, Sulplício.
- Antigamente queríamos ser civilizados. Agora queremos ser modernos.Continuávamos, ao fim ao cabo, prisioneiros da vontade de não sermos nós. O velho Sulplício, no momento, parecia demasiado palavroso.Mia Couto põe a mesa a desgraça e pobreza do povo Moçambicano que vive à margem e ainda governados por corruptos. Mas em contrapartida, nos mostra um povo que ainda luta por suas tradições e que tenta resgatar a todo custo os destroços dos seus antepassados.
O que fizeram esses brancos foi ocuparem-nos. Não foi só a terra: ocuparam-nos a nós, acamparam no meio das nossas cabeças. Somos madeira que apanhou chuva. Agora não acendemos nem damos sombra. Temos que secar à luz de um sol que ainda não há. Esse sol só pode nascer dentro de nós.A narrativa é em primeira pessoa, feita pelo tradutor e é incrível como vemos o reencontro desse personagem com suas origens, no decorrer da história, ao relembrar seus diálogos com sua mãe (já falecida) e o retorno do seu velho e sábio pai.
Outra coisa que encanta é o lirismo depositado no flamingo, uma ave que simboliza esperança e paz para aquele povo.
Em fins de tarde, os flamingos cruzavam o céu. Minha mãe ficava calada, contemplando o voo. Enquanto não se extinguissem os longos pássaros ela não pronunciava palavra. Nem eu me podia mexer. Tudo, nesse momento, era sagrado. Já no desfalecer da luz minha mãe entoava, quase em surdina, uma canção que ela tirara de seu invento. Para ela, os flamingos eram eles que empurravam o sol para que o dia chegasse ao outro lado.O meu pensamento sobre o livro se confunde com as próprias palavras de Mia Couto:
O último voo do flamingo fala de uma perversa fabricação de ausência - a falta de uma terra toda inteira, um imenso rapto de esperança praticado pela ganância dos poderosos.Quem protagoniza toda a história é a ausência, daquilo que pertencia aquele lugar, mas que foi levado, ou evaporado, junto com o suor dos escravos e as lágrimas da libertação de um povo que ainda vive preso na triste ausência do voo.
Pra quem procura uma leitura intensa, cheia de humor e requinte crítico, faço mais que uma indicação, leia O último voo do flamingo.








Resenha de ótima qualidade, me deixou com vontade de ler esse livro! E olha que eu nunca tinha ouvido falar do autor rsrs'
ResponderExcluirParabéns pelo post! ♥
http://folhasnumeradas.blogspot.com.br/
Muito obrigada Erica, leia mesmo, e venha nos contar o que achou!
ExcluirBeijo.
Oiiii, tudo bem com você?
ResponderExcluirMia é homem? kkk, gente, eu aqui achando que era mulher.
Adorei a resenha viu? Pelo título, sem ler sinopse nem resenha, eu não leria, mas depois de ler a sinopse e resenha eu ficaria arrependida da minha escolha, haha, Achei bem interessante. Parabéns pela resenha. Beijos.
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Oi Jéss, tudo bem sim, espero que com você também. Pois é, Mia é homem shaushauh. Fico feliz que a resenha tenha despertado o interesse pela leitura. :)
ExcluirOlá, quero muito ler algo do autor.
ResponderExcluirGostei da sua resenha e fiquei com vontade de ler esse livro, que até então eu desconhecia.
petalasdeliberdade.blogspot.com
Super indico! É um grande escritor.
ExcluirBeijo.
Eu nunca tinha ouvido falar desse livro ou do escritor, e a primeira impressão que tive é de um livro difícil de se ler, ainda bem que não é, haha.
ResponderExcluirAchei engraçado o que vc falou sobre os personagens, bem inusitados msm! Me interessei!
Beijos
http://acolecionadoradehistorias.blogspot.com
Acho que todo mundo tem essa impressão de que o livro é difícil, acredito que é porque não se trata de um livro tão comercial como os livros infanto-juvenis. De fato, é um livro que tem um humor incrível, impossível não rir com alguns personagens. hsuahsua.
ExcluirBeijos!
Olá :)
ResponderExcluirEu ainda não sabia da existência desse livro, pela sua resenha já da para perceber que se trata de um belo livro, o mesmo mostra a realidade do povo Africano, sem dúvida deve ser um livro com críticas, cultura deles, e ensinamentos. Quem sabe algum dia eu faça a leitura desse livro. Resenha ótima! *-* Beijos...
É um livro muito lindo mesmo, é um mergulho na realidade do povo moçambicano. Leia mesmo. *-*
ExcluirBeijo.