Resenha: Uma Praça em Antuérpia, Luize Valente


ISBN: 9788501103178
Título: Uma Praça em Antuérpia
Autor: Luize Valente
Editora: Editora Record
Páginas: 363
Ano: 2015
Uma Praça em Antuérpia - Após sua estreia literária com O segredo do oratório, sucesso de público e crítica, Luize Valente volta a mergulhar, de maneira ainda mais surpreendente, na história de uma família de migrantes em Uma praça em Antuérpia. Com domínio da narrativa, que vai e volta do ano-novo de 2000 em Copacabana para os anos da eclosão da Segunda Guerra na Europa, Luize reconstitui a desgraça imposta pelo nazismo aos judeus, razão pela qual muitos deles viriam fazer a vida no Brasil.
Reunindo sensibilidade pelo drama humano e extensa pesquisa histórica, Luize retrata a chaga do nazismo na miudeza do cotidiano, na intimidade das famílias alemães e europeias, com bárbaros desdobramentos em Portugal, no lar de Clarice e Olivia, de onde a narrativa parte para ganhar o mundo e o Brasil. Acompanhamos a fuga de Clarice e seu marido, o pianista judeu Theodor, por grande parte da Europa, sempre um passo à frente da perseguição nazista, fuga que leva parte da família a cruzar o oceano. Como se não bastasse essa narrativa de tirar o fôlego, Luize presenteia o leitor com um final emocionante e totalmente inesperado.


MARAVILHOSO adj. Que é capaz de provocar admiração: espetáculo maravilhoso.
Que chama atenção pelas qualidades positivas, pela beleza e excelência
Que não pode ser explicado racionalmente; que foge da lógica: história maravilhosa.
s.m. O que é alvo de admiração: o maravilhoso não pode ser explicado.
Literatura. Evento sobrenatural que altera o rumo da ação numa narrativa.
(Etm. maravilha + oso)


Não existiria melhor forma de começar esse texto sem antes resumir tudo na única palavra que caberia como sinônimo desse livro: Maravilhoso. 
Luize Valente (guarde bem esse nome) me surpreendeu muito ao narrar o relato emocionante e real (ainda que fictício) de Clarice Zuskinder durante a segunda guerra mundial. 

As lembranças voltam com toda força no primeiro dia do ano 2000, quando tudo deveria ser alegria começamos a conhecer as tristezas de uma doce senhora, o dia que deveria ser celebrado porque simbolizava paz, trouxe como um vendaval todas as lembranças de uma guerra que deixou muito mais do que marcas.
O relato é intercalado entre o presente e o passado, somos transportados para o Norte de Portugal, local do nascimento de Clarice e sua irmã gêmea Olívia, por volta de 1916. As duas cresceram com a ausência da mãe e do pai, ambos morreram no parto, a primeira fisicamente, o segundo matou qualquer sinal afetivo de paternidade. Felizmente receberam todo amor da avó, que nunca as abandonou. Depois de crescidas, seguiram seus caminhos, Olívia casou-se primeiro com Antonio, filho da empregada que cuidou delas, um amor daquele predestinados a existir. Depois da morte da avó, Clarice foi morar com a irmã em Lisboa e lá conheceu Theodor, um pianista, cheio de ideiais, mas era o que havia de pior para ser naquela época: judeu. E foi por causa disso que eles tiveram que se separar, Theodor precisou partir, temia por sua vida e sobretudo colocar em risco a vida daqueles que amava, o que incluia Clarice. O que ambos não esperava era que aquele amor já estava a dar frutos, Clarice estava grávida e sem notícias do amado, a última vez que entrara em contato foi pra avisar que esquecesse dele, que não voltaria e que não teria um endereço fixo. Desolada a garota foi pra outra cidade, inventou ser viúva para que pudesse ter o bebê sem ser julgada, já que na verdade era uma mulher solteira. Theodor não aguentou muito tempo longe daquela que aos poucos se tornou a razão do seu viver, ao voltar a Lisboa descobriu a gravidez e correu para busca-la, enfim ficaram juntos e construíram uma vida na Bélgica, mais precisamente em Antuérpia, onde viveram seus melhores momentos. Essa era a melhor lembrança de Clarice, porque a partir daí tudo desabou. O romance passa a ser movido por fulgas, sofrimentos, mas uma imensa esperança percorria as almas daqueles que sofreram as consequencia de uma guerra cujo sentido não existe. O Führer estava cada vez mais forte e isso significava a destruição de milhares de pessoas, Clarice e sua família estava no meio disso tudo, já que estava casada com um judeu. 

É impossível não se emocionar com a luta dessa e de outras famílias, que lutavam unicamente pelo direito a vida. Nos sentimos ligados aquelas pessoas, porque assim como eles, também não conseguimos entender o real motivo daquilo tudo, como foram se tornar a escória do mundo de uma hora pra outra?! 

Uma Praça em Antuérpia é um romance que ultrapassa qualquer conceito de romance, Luize Valente nos presenteia com uma narrativa muito rica, onde o fictício e o real se misturam tornando-se um só. Quantas Clarices viveram aquela época? Quantas famílias tiveram que fugir abandonando tudo que levaram anos para construir? Uma das piores épocas da humanidade trazem consigo histórias extremamente dolorosas. 

A construção dos personagens foi muito importante, conseguimos enxergar além do sofrimento, conseguimos ver aquelas pessoas como humanos, bons. Apesar de tantos outros agindo como monstros. Gostei muito da forma como a história foi contada através das memórias de Clarice, uma mulher extremamente forte que conseguiu sobreviver as piores dores que alguém pode ser submetido.

O contexto histórico foi crucial para a construção da narrativa e a autora foi perfeita em suas pesquisas, tudo muito bem detalhado, todos os acontecimentos narrados de uma forma esplêndida. Foi uma enorme surpresa pra mim, já que poucos autores conseguem escrever sobre esse período com tanta excelência. A escrita de Luize Valente é extremamente leve e eletrizante de tal forma que dá pra finalizar a leitura em um fim de semana. 

A narrativa acontece em terceira pessoa, os capítulos são curtos, o que ajuda fluir melhor a leitura. A diagramação está impecável, fiquei apaixonada pela capa, pelas cores usadas. A revisão está perfeita, não encontrei nenhum erro. Uma Praça em Antuérpia é um projeto que deu mais do que certo.

E não dá pra finalizar sem dizer que eu mais do que indico essa leitura para todos, e se você, assim como eu, gosta bastante de histórias ambientadas na segunda guerra está esperando o que para ler? Sério, esse é o tipo de livro que vai ficar na minha estante do lado de A menina que roubava livros e O diário de Anne Frank. 
Foi, de fato, um livro emocionante, tanto pelo seu conteúdo, quanto pelo orgulho que senti por mais uma vez ler algo tão bom da literatura brasileira.


Foto: arquivo pessoal







2 comentários

  1. É bem diferente do que costumo ler
    mas não tenho problemas em experimentar coisas novas
    dica anotada
    ⋙ ♥ Blog Livros com café

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  2. Oi, tudo bem?
    Ainda não li nenhum livro que se passa durante a segunda guerra, mas não me falta vontade.
    A premissa desse livro é bem interessante, com certeza ele já está indo para minha lista de desejados.
    Beijos

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